body diary #2 com Vânia Duarte

Olá Vânia,

Podes contar-nos um bocadinho sobre ti

Olá Cláudia. Antes de mais agradeço pelo convite, é sempre um prazer fazer parte de um projeto teu pois sei que vem de um lugar muito bonito. Então o meu nome é Vânia, tenho 35 anos e sou uma miúda de muitas paixões. Formei-me em Design, carreira que exerci nos últimos 11 anos até Junho deste ano que tomei a decisão de largar para mudar o meu rumo professional e abraçar todas as paixões que nos últimos tempos tomaram conta de mim. Assim sendo hoje em dia sou Professora de Yoga, Terapeuta de Thai Massagem e Fundadora da Surya Cristais. Tive uma relação péssima com o meu corpo durante 15 anos, sofri de bulimia, imagem corporal distorcida, overtraining até que em 2016 fiquei muito doente por causa de uma dieta e ao ver-me novamente doente decidi que bastava de viver assim e escolhi curar-me. 

Como consideras que é hoje a relação que tens com o teu corpo

É maravilhosa. Não no sentido do amar todos os dias profundamente e achá-lo lindo e maravilhoso, porque sejamos honestos ninguém se ama todos os dias e este é provavelmente o maior engano do amor próprio, mas vivo muito em paz com o meu corpo e acima de tudo com um grande respeito. Costumo dizer muitas vezes que sempre achei que queria um corpo fit, mas a verdade é que depois de me encontrar percebi que aquilo que mais quis a vida toda foi paz com a comida, o meu corpo e o espelho. Isto não significa que eu adore todas as partes do meu corpo e que tenha de me aceitar como sou. Mudar é incrível, eu sou totalmente a favour de mudanças mas quando elas chegam de um lugar de plena consciência que o fazemos pela nossa saúde (seja ela física ou mental) e não porque queremos chegar a um determinado padrão de beleza que idealizamos como perfeito na nossa cabeça. Pela minha experiência estes padrões são utópicos e assim que lá chegamos percebemos que não chega e continuamos ali, a pedir mais e mais. Por isso hoje a minha relação é sem dúvida de um grande respeito. 

Que caminho fizeste para chegar até aqui

Eu passei muitos anos a querer um corpo diferente, a odiar por completo viver nesta casa que o universo me deu e depois de ficar doente novamente aos 30 anos percebi que andava a girar numa roda há anos e não saia do mesmo sítio. Comia compulsivamente para me punir ou celebrar, restringia comida, treinava que nem louca ou não treinava de todo e estava constantemente em dieta, fosse ela qual fosse (experimentei todas garanto), não existia um meio termo na minha vida. Depois de estar sozinha no hospital, com um prognóstico horrível por causa de uma dieta caiu-me a ficha e senti uma vergonha gigantesca de mim mesma, e nessa altura jurei que tinha de melhorar. Aquilo que eu acho verdadeiramente que aconteceu aqui e talvez tenha sido a grande mudança é que eu escolhi-me mesmo. Não foi escolher uma dieta ou um treino diferente para mudar o meu corpo, não foi escolher só comer saudável, foi mesmo escolher a mim mesma enquanto ser humano, escolher ter saúde, escolher ser mesmo feliz comigo e aqui o chip mudou. 

Claro que não fiz isto sozinha, pedi ajuda psicológica e nutricional que foram fundamentais para a minha recuperação. Saí do ginásio porque percebi que aquele ambiente me fazia mal e na altura fiz mesmo uma pausa no exercício porque o meu organismo estava mesmo esgotado. Estive 3 meses sem treinar mesmo e isto foi super desafiante mas foi necessário. 

Depois comecei a treinar num grupo outdoor em frente à praia e voltei ao Yoga que tinha parado em 2015 por causa dos treinos bi-diários que fazia. Em 2018 fiz acompanhamento com uma coach de negócios porque eu não estava muito feliz a fazer o que fazia mas sofria muito do síndrome de escassez e do impostor, portanto fizemos um trabalho bastante interessante de desbloquear muitas crenças minhas que também impactaram a relação com o meu corpo. No final desse ano ganhei coragem para lançar o meu e-book de cristais que me pagou o retiro que fiz à India em 2019 e isso foi um ponto fulcral para mim. Aquilo que percebi é que ao longo destes 4 anos ganhei muito mais confiança em mim e isso deveu-se sem dúvida à relação com a minha imagem ter mudado. 

E que aprendizagens retiraste ao longo do processo

A maior é que o nosso corpo é um guerreiro do caraças. Desculpa dizer isto desta forma mas a verdade é que olhando para tudo o que fiz ao meu corpo – vomitar diariamente durante 8 anos, viver em dieta constante versus comer até ficar mal disposta e treinar 7 dias por semana duas vezes por dia e ele nunca me falhou. Sim em 2016 deu-me um grande grande aviso, mas nunca nem por um momento me falhou e desde que tomei consciência disso que passei a comer para honrar esta casa que tratei tão mal. Depois percebi que as mudanças levam mesmo tempo. E sim eu sei que isto pode parecer cliché mas passaram 4 anos e eu ainda estou nesta jornada de cuidar de mim, de aprender a lidar com alguns demónios, de ser sobretudo resiliente coisa que eu nunca fui. Aprendi também que por mais que te inspires em outras pessoas, tu e a tua saúde têm mesmo de ser a tua maior fonte de inspiração, porque se não inevitavelmente vais acabar por te comparar. 

O que é para ti comer e fazer exercício físico de uma forma intuitiva? Sentes que respeitas a tua fome e o teu corpo nas escolhas que fases?

Olha eu cresci com aquela coisa do comer de 3 em 3 horas. Depois quando comecei a ficar obcecada com a minha imagem tinha períodos em que estava em défice calórico e por isso só podia comer x calorias e tinha outros momentos em que estava em bulk – aumento de peso para criar massa magra  – e por isso comia bastante e muitas vezes sem fome nenhuma mas como tinha de cumprir as metas calóricas. Ou seja a minha alimentação era feita com uma calculadora atrás, portanto a Liberdade que tenho hoje com a comida é incrível. E isto significa que há espaço para tudo na minha alimentação sem culpas. A verdade é que eu alimento-me de forma nutricionalmente rica a maior parte do tempo, gosto de comer vegetais, frutas, e bons cereais a maior parte do tempo, mas também amo de paixão batatas fritas caseiras e chocolate de leite com avelãs. Ora no passado só existia espaço para o chocolate preto, hoje em dia com esta relação mais consciente com a comida eu sei que não é um bocado de chocolate de leite que me faz mal. 

Comer de forma intuitiva para mim é sem dúvida conseguir diferenciar se tenho vontade de comer porque estou emocionalmente instável ou se é porque tenho mesmo fome. E isto é sem dúvida fulcral para a relação com a comida melhorar. Quanto ao exercício, hoje em dia treino entre 2 a 3 vezes por semana máximo (se a vânia de há 4 anos lesse isto ia cair para o lado), e faço-o essencialmente para me manter ativa e saudável. Eu sou uma nerd da mobilidade porque com o nosso estilo de vida estamos a perdê-la cada vez mais e por isso os meus treinos hoje em dia são muito mais para potenciar a minha mobilidade do que para ter um barriga lisa. 

Partilha connosco uma ferramenta ou uma dica que te tenha ajudado a reescrever a tua história com a comida e neste processo de aceitação do corpo

Eu sei que isto pode parecer estranho mas falar comigo ao espelho. Isto é uma coisa que eu faço hoje em dia e comecei a fazê-lo em 2016. E quando digo falar não são só frases lindas e empoderadoras de “eu sou capaz”. É mesmo ter uma conversa franca comigo onde digo tudo o que me vai na alma a olhar-me mesmo nos olhos. Isto tem tanto de incrível como de doloroso e tive momentos bem duros com coisas que disse e senti sobre mim mesma mas ajudaram-me muito a mudar a relação com o meu corpo. 

Relativamente à comida eu passei a racionalizar muito os momentos das compulsões onde trazia para cima da mesa mesmo antes de uma compulsão todas as sensações e palavras terríveis que eu sabia que surgiam depois de um momento destes e isto ajudou-me a ter cada vez menos compulsões. E depois lentamente comecei a olhar para a comida não como uma fonte de calorias mas como uma fonte de nutrientes. Libertar-me da loucura das calorias deu-me anos de vida.

Se tivesses hoje de escrever no teu diário ao teu corpo, o que é que lhe dirias?

Uma única coisa: Obrigada por nunca teres desistido de mim.